Arquivo de dezembro 26th, 2011

dez 26 2011

Sobre família e o que ela significa

Publicado por em Família

Natal é um época que me deixa sempre muito deprê. Apesar de toda a empolgação, a vontade de encontrar toda a família, de estar todos juntos, eu sempre sinto um vazio porque é um evento de FAMÍLIA, e eu não tenho certeza do que isso significa.

Este post relutei muito em escrever. É muita intimidade, e pode causar grandes mágoas em algumas pessoas. Mas dada a minha condição atual (grávida), o assunto família tem sido a minha maior angústia, pois me preocupo muito como vou criar a minha família e passar o conceito de família para minha filha.

Eu não sei se o conceito que eu tenho de família é o conceito ideal, ou pelo menos o padrão. Eu só sei que o que eu tenho como família (e não estou falando da minha família com o Rafa, e sim minha família de sangue) não é o tipo de família que quero dar para a minha filha.

Meus pais foram 2 heróis. Assim como os pais de todo mundo (e como nós tendemos a fazer também), pegaram tudo de ruim que tiveram (ou não puderam ter) nas suas infâncias/adolescências e nos proporcionaram. Minha irmã e eu sempre fomos muito educadas, melhores alunas, nunca tivemos uma cárie sequer (dentes impecáveis), donas de casa perfeitas (vejam meu lado culinária) mas também excelentes profissionais, com 12 anos eu falava inglês fluente (o que no começo dos anos 90 não era comum), nunca tivemos pele detonada (na primeira espinha milhares de cremes caros para resolver o problema), sempre arrumadas, sempre tudo muito próximo do perfeito.

Eles nos criaram para ser perfeitas. Na grande inocência deles, não perceberam o problema que estavam nos causando. Fizeram um excelente trabalho, somos as filhas “quase” perfeitas, daquelas de dar orgulho nas rodinhas de amigas contando sobre as filhas e suas conquistas. Não engravidamos antes de casar, não fomos drogadas, não fomos revoltadas, fizemos carreiras brilhantes, casamento, netos, boas casas, status social, etc.

Mas é aí que está o problema. Quando você cria uma pessoa exigindo que ela seja perfeita o tempo todo, você está pedindo ao mesmo tempo que ela seja melhor que os outros. E ser melhor que os outros não é fácil. Porque no mundo sempre vai ter alguém mais inteligente, mais rico, mais bonito, mais sortudo. E você se torna escravo dessa busca constante pela perfeição. É assim que eu vivo. Sempre buscando ser melhor que todo mundo, quero ganhar mais, ser a mais legal, a mais descolada, a mais bem sucedida. E isso tem um preço, e muito alto.

Meus verdadeiros amigos me conhecem, sabem que sou assim e no mais profundo conceito de amizade, me aceitam, aceitam esse meu jeito. O que eles não sabem é que eu não me aceito assim, eu não quero mais ser assim. Tenho trabalhado MUITO nas sessões semanais (que precisavam ser diárias, rs) de terapia mudar um pouco o meu jeito de encarar o mundo. Entender que não sou melhor que ninguém (ou talvez não melhor que todo mundo, só de alguns, rs) tem me custado muito. Horas e horas de reflexão. Respiros profundos e muito, muito florais de bach para ajudar. Respeitar o jeito do outro, o espaço do outro, tem me custado muitos respiros profundos.

Alguns exemplos para facilitar:

– Se eu entrar com você no seu carro, com certeza vou achar que dirijo melhor que você, não importa quão bom motorista você seja. O meu caminho sempre vai ser melhor e mais rápido que o seu. Vou te achar desligada, que você não se planeja quando está dirigindo. O semáforo vermelho e você nem freia desde longe para evitar assaltos. Sua desligada.

– Você fez um risoto maravilhoso, mas ficou faltando um pouquinho de sal, ou um pouquinho mais de queijo. Você nem percebeu, se fosse eu jamais serviria sem provar e perceber que mais uma pitadinha funcionava. Ou melhor, você devia ter me pedido para cozinhar, porque eu teria feito melhor.

– Você reclama das várias atribuições que tem, que seu dia é pesado. Por favor né? Você nem cuida da casa direito, outro dia vi seu marido com o ombro do paletó cheio de caspa, que tipo de mulher deixa o marido sair assim? E você nem cozinha, coitado dele, vivem de delivery e congelados.  Ah, isso para não dizer que você NÃO trabalha no mercado financeiro, o que faz da sua vida muito fácil né, porque vamos combinar, só quem tá no mercado financeiro sabe o que é pressão e entende o que acontece com o mundo.

Entenderam o nível de piração? Pensa que é fácil vir aqui e escancarar os seus defeitos assim pro mundo, ainda mais você que busca sempre a perfeição? Pois é, não é nada fácil. Ou talvez era fácil ignorar esse meu jeito PIRADO quando no mundo eu só tinha uma coisa: o meu umbigo. Agora eu tenho uma pessoa dentro de mim, alguém que não quero que se pareça em nada comigo.

Eu quero muito, mas muito mesmo, ensinar para minha filha que ela tem que ser aquilo que ela é. Eu quero que ela seja feliz com aquilo que ela é, sente, deseja. Não quero que ela sinta vergonha do que não pode ser, quero que ela saiba seus limites e seja feliz convivendo com eles. E é nesse contexto que se encaixa o tema família.

Eu acredito que família significa um núcleo de pessoas que te aceitam como você é, que te amam por aquilo que você é e estarão sempre lá para o que você precisar. É no seio familiar que se entende o que respeito significa, e digo respeito no sentido de aceitar as limitações e características do outro, é não se magoar com atitudes que sejam diferentes da sua, é estar feliz com pessoas que são completamente diferentes de você. Isso é algo que eu não tenho na minha família.

Eu sei que posso contar com eles sempre, qualquer coisa que eu pedir eles vão fazer por mim. Mas porque é assim que se constrói uma família “perfeita”, e não por respeitar um ao outro. Alí estamos sempre competindo, sempre querendo provar um ao outro que somos melhores, que nosso jeito é sempre o melhor. E acaba que sai todo mundo frustado e magoado, porque é impossível 4 pessoas serem todas elas perfeitas ou melhores que as outras, alguém vai ser o mais fraco, alguém vai errar.

Eu sei que para você leitor este post está totalmente confuso e você ainda não entendeu o que eu quero dizer. Nem eu sei bem. O que eu estou tentando dizer é que eu amo minha família, sei que eles vão sempre me ajudar quando eu precisar, mas esse conceito de família que temos não é o que eu quero criar para mim. Eu quero uma família diferente. Eu quero uma família que preze pelo companheirismo, pela união, pelo respeito. E eu não sei como chegar lá, por isso escrevi esse post. Porque é quando eu escrevo que eu mais me entendo, mais me enxergo. E eu tenho muito medo do que vejo, tenho receio que os 4 meses restantes da gravidez sejam insuficientes para eu me preparar para criar um ser humano e não transformá-lo em “desumano”. Sei que vou conseguir evitar muitos dos erros que vi na minha criação, mas cometerei outros erros. E assim como deixaram em mim uma marca profunda e um peso que carrego comigo diariamente, fico aterrorizada de pensar que posso fazer isso com outra pessoa também.

Vejo por aí as pessoas dizendo que você só entende sua mãe quando você vira mãe. E não tenho a menor idéia do que isso significa. Eu tenho medo do que isso significa, porque eu não quero nunca entender, compreender as atitudes da minha mãe, porque no fundo eu não quero perdoar muitas delas. E sabe porque? Porque é mais fácil culpá-la do que aceitar que eu também posso ter errado, e muito.

Vou parando por aqui porque estou me perdendo, rs. Eu só precisava expor a minha angústia de ser mãe, de NÃO ser uma BOA mãe. Sei que todas as mulheres passam por isso, e que a maioria encontra o seu caminho, o seu melhor jeito de criar um filho e formar uma família. Mas é que eu tenho muito medo de querer formar uma família perfeita, quando no fundo eu só quero uma família unida, companheira e cheia de amor.

Obrigada a todos que me fizeram companhia por aqui em 2011. Foi um ano turbulento para quase todos, foi um ano esquisito. Mas 2012 tá aí, e é ano PAR. Amo anos pares. PAR significa positivo. E é isso que eu desejo a você. Um ano muito positivo. Muito amor, muita saúde. Que Deus abençõe nossas vidas. Feliz 2012!!

 

Um coment??rio