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Oct 21 2009

Batalhas da vida a dois

Publicado por em Casamento,Dia a Dia,Romance

Independente de ser casados no papel ou não, quando um casal decide realmente ser um casal, isto é, dividir uma vida juntos, começa alí uma infinidade de batalhas que eles vão ter que lutar.

Eu acredito que um casal só é casal mesmo quando mora junto. Esse negócio de casamento (ou namoro) em que cada um tem sua casa num rola muito no meu conceito. Casal, no sentido “duas metades” sobrevivendo juntos, tem que dividir o mesmo teto. E só assim se prova casal.

Tudo começa assim: primeiro você abre mão de alguns programas de TV, de comer comida que para você é uma delícia e ele nunca ouviu falar e já faz cara feia, de dormir até tarde (ou cedo), de ter mais espaço no armário, de ter tudo no seu lugar o tempo todo (homem tem a proeza de pegar um coisa num canto e deixar em outro, nunca devolve ao mesmo lugar!!), etc. Mas até aí tudo bem, tudo lindo, a brincadeira de casinha é uma delícia, você pode estar com ele o tempo todo, namorarem, jantar juntinhos, dar risadas, etc…

No segundo momento você começa a se irritar com coisas pequenas: a cueca que ele não tem capacidade de jogar no cesto ao lado do canto onde ele deixa jogado, você ter que acordar mais cedo para tomar banho por causa da divisão do banheiro e horário de trabalho de ambos, pelo copo molhado sem apoio na sua mesa cara, e por aí vai. Mas ainda tá tudo ótimo, vocês ainda fazem sexo com frequência, sem agendamento, no calor da coisa, ainda dão risada de tudo, fazem mil programas com os amigos, e dinheiro e contas e/ou filhos não são seu único assunto.

Aí meu bem, vem a terceira fase e a fase de consolidação de um relacionamento. Se você chegou aqui, pronto tá no ápice. Aqui você começa a implicar com qualquer coisa pequena (pequena meeessssmo), por ele não ajudar tanto, pela família dele que você não entende como um dia foi capaz de gostar, pela zona na casa, pelo excesso (ou falta!) de trabalho dele (ou sua), pela falta de perspectiva ou pela falta de planejamento de vida dele (delEEEE, porque só homem não se programa, rs!!), etc… A lista é infinita. Aqui vocês já não se pegam mais no calor da coisa. Sexo? Só combinado, mediante acordo de ambas as partes. Dor de cabeça é uma constante, dorme junto na cama. Vocês dois sabem de cor e salteado o saldo no Banco. Vocês só falam das contas a pagar, das coisas que faltam para terminar a decoração da casa, dos eventos chatos de família, dos eventos profissionais, do MBA, da empregada que faltou e ainda pediu aumento, do óleo do motor do carro que precisa ser trocado, da babá que fala pralavrão para o filho, da mensalidade da escolinha, entre outras mil.

Pausa – já se encaixou em algo? – Despausa (by LuBrasil)

Parece ruim né? E é. Vocês nem lembram mais como é ter ressaca das brabas e não lembrar de mais nada no dia seguinte, tem medo de fazer uma ultrapassagem perigosa, medo de avião, dirigir depois de 3 chops nem pensar (e sem considerar lei Seca), ir a um bar com os colegas de trabalho e quando for 11 da noite todos os solteiros empolgarem para uma balada a primeira coisa que você lembra é que amanhã é dia de trabalho e não vai levantar (e esquece quantas vezes você fez isso na vida), você nunca mais ouviu uma história caliente de uma amiga sua (estão todas casadas e as ainda solteiras reclamam que não tem homem na praça), final de semana para vocês significa dormir sem despertador (quando não se tem filhos) e não mais diversão garantida.

Pois é, quer o diagnóstico?

Você cresceu.

Virou sua mãe.

Pois é, eu também.

Parece chato né?

Pensou que nunca chegaria aqui né?

Achou que seria mais moderninha, que os tempos são outros e que uma pitada de sex shop, livros, viagens não te deixariam cair na rotina né?

Pois é. Pois é.

Sabe porque temos que passar por isso?

Porque apesar de envelhecermos e tudo só crescer (barriga, culote, rugas, cabelos brancos e infinidade de responsabilidades!!!), é BOM DEMAIS estar aqui.

Apesar de focarmos mais nas responsabilidades, de nosso nível de paciência praticamente estar próximo de zero, de você não dormir pensando naquela reunião do dia seguinte, por você passear no shopping e ficar louca por um jogo de panelas ou lençol, de não lembrar a última vez em que riu de fazer a barriga doer, etc… você é realizada.

Sim, esta palavrinha não existe depois de passar pelo purgatório (aquele descrito em três fases aí em cima!). Isso acontece na sua vida pessoal e também na profissional (lembrou da sua época de estagiária e recém contratada?). Mas é tããããõoooo bom chegar até aqui.

Concordo que o relacionamento fica menos divertido. Mas fica tão mais estável. Tão mais profundo. Vocês se conhecem pelo olhar, pelo OI que cada um dá ao chegar do trabalho no fim do dia.

Ele: “Oi amor tudo bem?”

Ela: “Tudo!”

Ele: “O que foi? O que você tem?

Ela: ” Nada”.

Pronto. Ele te conhece e pelo seu nada sabe sim que tem alguma coisa. Isso não é maravilhoso? Isso não é o ápice? Uma pessoa te conhecer tão bem quanto você? Ter certeza sobre a sua pessoa?

Relacionamento fica maduro e assim fica porque realmente ele amadurece. Ficamos velhos (não fisicamente) e cheios de responsabilidades mas temos na vida a plenitude, a oportunidade de se sentir completo. Você não está sozinho. E não estar sozinho não significa só ter um namorado, marido. Significa ter um companheiro, alguém que caminha com você, alguém que está alí do seu lado, para te apoiar quando você cair.

E para isso, não tem outra forma, a não ser passar por todas as fases acima. E sair delas fortalecidos, amando muito mais.

O amadurecimento de um relacionamento dói, traz muitas responsabilidades, requer kilos de paciência, conversas, respeito, e sempre deixa saudades do tempo em que tudo era tão mais fácil.

Mas é tão bom chegar aqui. Acredite.

Este post foi inspirado em três acontecimentos atuais da minha vida.

O primeiro, eu e meu marido sobrevivermos a nossa reforma, que com certeza foi o maior desafio que enfrentamos como companheiros (até agora!) e que abalou e muito nosso relacionamento. Descobrimos que a vida conforme ela passa vai trazendo mais e mais problemas, responsabilidades (sem falar nos filhos), pesos, dores e saudades, mas também te aproxima cada vez mais daqueles que você ama.

 O segundo, o casamento daqui a 10 dias de uma amiga romântica assumida, que há um ano me dizia no meu casamento que o sonho dela era um dia também casar com o verdadeiro companheiro, e nem imaginava que em tão pouco tempo concretizaria o sonho dela. Que ainda tem que viver algumas das fases acima mas que me dá tanta tranquilidade que vai passar facinho por tudo isso. Que ainda existem casais que buscam se completarem, crescerem juntos, e não simplesmente suprir carência afetiva alheia.

E o terceiro, ver um casal que não teve forças para passar por tudo isso, que mostraram para mim e para nosso grupo de amigos que é mais fácil desistir de um relacionamento do que lutar, que quando cada um olha para o que é importante para si mesmo e não para a vida de ambos não está construindo relacionamento nem cumplicidade, que quando não há perdão não há também continuidade, que quando não se escuta e não se dá o braço a torcer só se perde e nada se ganha, que se irritar com picuinhas é perda de tempo.

Eu sei que é difícil, que é um mantra que tem que ser repetido todo dia, mas temos que fazer como Zelia Gattai, esposa do querido Jorge Amado. Ambos viveram uma linda história de amor e companheirismo, e quando perguntaram a ela se ela não se irritava com a toalha molhada jogada (ou algo assim) ela só respondeu que não, que simplesmente pegaria a toalha e penduraria, que isso era tão pequeno em vista do que ele tinha de bom e do que fazia ela sentir. Lindo não? Sei que é difícil, mas eu prefiro passar pelas dificuldades e viver uma história assim do que sentar e dizer que é difícil. Como disse Nora Walker em B&S: “Eu aprendi na vida que você gasta muito mais energia e sofre muito mais tentando achar formas de negar os acontecimentos e enfrentar a realidade do que simplesmente enfrentá-la de uma vez.”

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